Resenha: Imagina-me - Tahereh Mafi

Avaliação: ★★☆☆☆ (2/5)
Classificação: +12
Gênero: Fantasia, distopia, romance e ficção jovem-adulta
Ano: 2014 / Páginas: 365
Editora: Universo dos Livros

Existem séries que terminam no momento certo. Existem séries que poderiam ganhar mais um livro porque ainda têm histórias interessantes para contar. E existem aquelas que você termina e pensa: talvez a autora devesse ter parado três livros atrás.

Infelizmente, Imagine-me, de Tahereh Mafi, pertence à terceira categoria.

Depois de acompanhar Juliette desde Estilhaça-me, passando por Liberta-me, Incendeia-me, Restaura-me e Desafia-me, eu cheguei ao último livro carregando uma mistura de curiosidade, esperança e, principalmente, desconfiança. Afinal, a série já tinha passado por tantas reviravoltas que eu sinceramente não sabia mais para onde aquela história poderia ir.

E, aparentemente, a própria narrativa também não sabia.

De uma trilogia promissora a uma história cada vez mais perdida

A primeira trilogia tinha uma proposta relativamente clara: Juliette Ella, uma garota que acreditava ser um monstro por causa de seu poder, precisava descobrir quem era, entender sua habilidade e decidir que tipo de pessoa queria ser em meio a uma sociedade autoritária.

Depois dos acontecimentos dos livros anteriores, Juliette se encontra diante de uma realidade ainda mais complexa. Os últimos três volumes dão a sensação de que estamos acompanhando outra história dentro da mesma história. Tudo muda: os conflitos, as revelações, as relações entre os personagens e até a própria percepção que tínhamos daquele universo.

Novas informações são apresentadas o tempo inteiro, muitas delas enormes e potencialmente importantes. O problema é que várias dessas revelações chegam sem o preparo necessário. 

A surpresa inicial funciona. Mas ela não consegue se sustentar até o encerramento da série.

Ao longo dos livros, acumulamos organizações secretas, experimentos, parentes misteriosos, poderes, novas ameaças e conflitos que deveriam formar um grande quebra-cabeça.

Só que, quando chega a hora de encaixar as peças, algumas simplesmente não parecem pertencer à mesma imagem.

O conflito ficou maior do que a história conseguia sustentar

A família de Juliette Ella, suas origens, os experimentos, os poderes, a questão da dominação e todos os acontecimentos introduzidos nos livros anteriores deveriam formar um grande quebra-cabeça. O problema é que algumas peças parecem ter sido colocadas apenas para ocupar espaço.

Quando finalmente chega a hora de explicar determinadas questões, as respostas são rápidas demais. Conflitos que deveriam provocar impacto desaparecem. Algumas situações são resolvidas de maneira conveniente. E outras simplesmente ficam nas entrelinhas, obrigando o leitor a interpretar ou imaginar quais eram as verdadeiras intenções dos personagens.

Isso me incomodou bastante porque a série passou vários livros construindo a sensação de que tudo aquilo teria uma grande consequência. E, no final, muitas dessas consequências simplesmente não chegam. Um exemplo é Adam.

Depois de toda a importância que o personagem teve no início da série, ele praticamente desaparece da história. Em Imagine-me, sua presença é tão pequena que parece um desleixo.

E esse é um problema recorrente: a autora cria personagens e conflitos interessantes, mas não sabe o que fazer com eles depois. 

E aqui entra Emmaline, outra personagem que, para mim, deveria ter recebido muito mais importância no fechamento da história.

Ela não é apenas mais um elemento da mitologia de Estilhaça-me. Emmaline está diretamente ligada à origem das ilusões de um mundo em decadência que o Restabelecimento praga, à história de Ella (elas são irmãs) e os filhos dos Comandantes Supremos que vivem profundamente afetados por ela. 

Além disso, Ella e Emmaline fazem parte de um projeto chamado Operação Síntese que consiste em transferir a consciência de Emmaline para o corpo da irmã. Já que o seu esta se deteriorando.

Por isso, eu esperava que essa questão tivesse um peso muito maior na conclusão.

Depois de tantos livros descobrindo quem Emmaline era, qual era sua relação com Juliette e o que seus poderes significavam, a revelação de que o mundo estava sendo visto através de uma espécie de ilusão deveria gerar consequências enormes.

Juliette Ferrars, Ella Sommers, Quem é você agora? Um soldado do Restabelecimento.

Talvez a maior decepção para mim tenha sido Juliette Ella Ella+Emmaline.

O que foi que fizeram com você?

Em Imagine-me, parece que voltamos a esta zero. O que na minha percepção é bastante frustrante, o plot é repetido e Ella perde sua identidade se tornando um soldado robô que executa tudo que Anderson determina. Acontece umas interações bemmmm esquisitas entre eles que me deu vontade de fechar o livro e taca na parede.

Não há nada de interessante na trajetória de Juliette nesse volume, se juntasse os últimos três volumes em um só teria ficado mais agradável e melhor desenvolvido, já que eles constroem e se fundamentam em um único conflito principal.

A sensação é que Tahereh estava perdida com o rumo que sua obra tomou, não sei se foi algum bloqueio de criatividade, mas parece que ficou um desenvolvimento preguiçoso.

E Warner?

Warner foi um dos personagens que mais se destacaram durante a série justamente por ser cheio de contradições. Era cruel, obsessivo, vulnerável, inteligente e extremamente difícil de compreender.

Por isso, esperava que o encerramento da história dele fosse proporcional à importância que ganhou. Mas, em alguns momentos, tive a impressão de que Warner também perdeu parte da personalidade que o tornava interessante. 

O personagem passa por situações extremas nesse volume, e a narrativa parece mais inclinada em colocá-lo dentro da ação do que em explorar as consequências emocionais de tudo aquilo.

E isso é especialmente frustrante porque Warner e Juliette deveriam ser dois dos grandes pilares emocionais do encerramento. Ele pede ela em casamento e logo depois acontece uma serie de coisa para afasta-los...

Eu queria ver o que aconteceria com Warner depois de tudo. Queria vê-lo se reconstruir. Queria compreender melhor quem ele seria sem depender da relação com Juliette, e essa é a única parte do desenvolvimento do personagem que ficou deixando a desejar.

Kenji continua sendo o sobrevivente

Ele continua sendo um personagem com presença, personalidade e uma dinâmica muito mais natural com os outros personagens. Quando a narrativa passa pelo ponto de vista dele, existe uma sensação diferente.

Ele consegue trazer humor, emoção e humanidade para uma história que muitas vezes está soterrada por revelações e conflitos.

Por outro lado, até Kenji sofre com algumas escolhas narrativas que parecem simplificar demais seus comportamentos. Algumas vezes é até excessivo o quanto ele fica parecendo infantil.

E eu sinceramente gostaria de ter visto muito mais dele, não necessariamente porque precisamos de outro livro, porque depois dessa experiência eu tenho até medo dessa possibilidade, mas porque ele tinha potencial para receber um desenvolvimento muito mais interessante.

E quanto aos personagens secundários?

Aqui está outra oportunidade desperdiçada. A série introduziu vários personagens ao longo da série que pareciam ter potencial para participar ativamente da história. Alguns receberam pequenos momentos de destaque, apenas para depois desaparecerem novamente.

Nazeera é um exemplo particularmente frustrante. Ela tinha personalidade, conflitos próprios e uma posição dentro daquele universo que poderia render muito mais. Mas sua participação acaba ficando muito aquém do potencial, ficou marcada como o interesse romântico do Kenji.

E esse é um problema recorrente em Imagine-me: a história apresenta possibilidades muito mais interessantes do que aquilo que efetivamente desenvolve.

O grande problema: o anticlimax

E chegamos ao final.

Depois de tantos livros, tantas revelações e tantas mudanças de direção, eu esperava uma conclusão capaz de justificar a existência dessa segunda metade da série.

A resolução de alguns dos principais conflitos acontece de maneira tão simples que parece quase incompatível com tudo aquilo que foi construído anteriormente.

É como assistir a uma história durante anos e, quando finalmente chega a hora de entregar a grande conclusão, alguém simplesmente apertar o botão de “resolver tudo”.

E pronto.

Acabou.

VEREDITO

Imagine-me tinha uma missão difícil: encerrar uma série que começou em 2011, passou por uma trilogia original e depois ganhou mais três livros. Sendo o livro de encerramento da serie Estilhaça-me que não fechou pontos importantes, tipo: COMO FICOU A SOCIEDADE, A REVOLUÇÃO? 

Eles só venceram e todo mundo esta feliz? Como Anderson foi destruído? Ele realmente morreu dessa vez? O que foi dito para o povo que agora consegue enxergar o mundo sem a ilusão de Emmaline? QUEM é o líder? O que aconteceu com os personagens no geral? Qual segredo Nazeera vem tentando desvendar? São perguntas que, para mim, deveriam fazer parte de uma conclusão satisfatória.

Existem boas ideias aqui. Existem personagens que ainda funcionam. Existem momentos emocionantes.

Mas tudo isso fica escondido embaixo de uma quantidade enorme de acontecimentos que nem sempre recebem o desenvolvimento necessário.

No final, fiquei com a impressão de que Estilhaça-me teria sido uma experiência muito mais interessante se tivesse terminado onde originalmente terminou.

E isso é particularmente triste porque eu ainda consigo enxergar o potencial que essa história tinha.

Eu não odeio Estilhaça-me. Na verdade, talvez esse seja justamente o problema. Eu gostei tanto do começo que fiquei esperando que os livros seguintes recuperassem aquela magia.

Mas não houve um desenvolvimento transcendental nesses últimos volumes o que fez a serie despencar no requisito qualidade.

Ehh Tahereh… talvez seja melhor deixar essa história descansar. Ops, parece que ela resolveu ressucitar a serie com os livros de A NOVA REPÚBLICA.

Serie essa que não pretendo ler. Acho que é melhor eu parar por aqui. Mas se quiserem podem me contar o que rola nesses novos lançamentos.

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