3 de mar. de 2026

Resenha: Romeu e Julieta - Shakesperare

Romeu e Julieta - William Shakespeare
Avaliação: ★★★★☆ (4.0) 
Classificação: 16+
Gênero: Dramático (tragédia), Ficção, Romance
Ano: 2009 (edição) / Páginas: 160 
Editora: L&PM POCKET

Reler Romeu e Julieta, 10 anos depois, foi um choque, não tinha maturidade literária e mental suficiente na época. Descobri que a versão popular da história é apenas a superfície de algo muito mais complexo e doloroso. 

E se a maior tragédia de amor da literatura não fosse sobre morrer por amor, mas sobre adultos orgulhosos demais para salvar seus próprios filhos?

O conflito central não é apenas o romance proibido entre dois jovens; é o ódio irracional entre duas famílias, Montéquio e Capuleto, que transforma a cidade de Verona em um campo minado emocional. O amor de Romeu e Julieta nasce dentro desse ambiente sufocante e cresce rápido demais, como se soubesse que o tempo é curto. 

A estrutura narrativa é linear, cronológica, com começo, meio e fim bem definidos, e que fim hein... Há prólogo, há presságios, há uma sequência de decisões precipitadas que funcionam como peças de dominó até o clímax devastador. 

Um casamento secreto, o duelo que muda o rumo da história, o plano arriscado do Frei Francisco, tudo conduz a um desfecho que não surpreende pelo que acontece. Sabemos que a tragédia virá, mas isso não diminui o impacto; ao contrário, amplia a angústia.

O narrador é onisciente, em terceira pessoa, característica do texto teatral que se constrói por meio de falas. Não há um único ponto de vista dominante, mas múltiplas vozes que revelam diferentes perspectivas sobre amor, honra, masculinidade e poder. Essa alternância dá profundidade ao conflito, porque percebemos que ninguém é completamente vilão, mas todos são responsáveis.

PERSONAGENS

Romeu é impulsivo, apaixonado pela ideia de amar. No início, sofre por Rosalina;  mas ao entrar de penetra na festa da família Capuleto, ele se depara com a belíssima jovem. Romeu se encanta por ela e pouco depois, declara amor eterno a Julieta. Há intensidade genuína, mas também imaturidade.  

Julieta, por outro lado, é quem apresenta o arco de transformação mais evidente. Começa recatada, quase infantil (o que seria até natural pela idade de 14 anos), e termina tomando decisões radicais sozinha. Quando descobre que Romeu é um Montecchio, poderia recuar, mas escolhe avançar. Quando ela percebe que será forçada a casar com Paris, desafia a autoridade paterna a ponto de colocar a própria vida em risco. 

Apesar de serem muito jovens, não vejo apenas paixão juvenil, vejo é compromisso selado às pressas em um mundo que não lhes dá espaço para amadurecer (eles de fato se casaram). São personagens complexos, atravessados por contradições, símbolos de uma juventude esmagada pelo orgulho masculino e pela rigidez social.

UNIVERSO & AMBIENTAÇÃO

A ambientação em Verona, na Itália renascentista, é histórica e realista, mas carregada de teatralidade. As ruas são palco de brigas públicas; os salões, de festas luxuosas e encontros secretos; a sacada se torna um dos cenários mais icônicos da literatura. Há uma coerência interna nas regras sociais, honra deve ser defendida, ofensas precisam ser vingadas, e são justamente essas regras que conduzem à tragédia. As descrições, ainda que vagas, ganham força pela linguagem poética, repleta de imagens sensoriais ligadas à luz e à escuridão, ao dia e à noite, ao céu e ao inferno.

TEMA & MENSAGENS

Os temas são universais: amor, ódio, destino, juventude, morte, honra, conflito geracional. A obra levanta reflexões sociais e existenciais profundas como: o que acontece quando o orgulho dos adultos vale mais do que a vida dos jovens? O amor é libertação ou condenação quando vivido sem maturidade?

O tom não é militante, mas simbólico e profundamente humano. Shakespeare não aponta o dedo, ele expõe. E o que fica depois da última página é um peso no peito, uma sensação de perda e a percepção de que a reconciliação veio tarde demais.

ESCRITA

A escrita é intensamente poética, musical, repleta de metáforas, hipérboles e jogos de linguagem. Há lirismo nas declarações de amor e brutalidade crua nas cenas de confronto. Shakespeare alterna humor , especialmente nas falas da Ama e de Mercúcio, com desespero absoluto. Ele conduz o leitor como quem sabe exatamente quando aliviar e quando apertar o coração. A repetição de imagens ligadas à luz transforma Julieta em sol, em estrela, em algo celestial, enquanto o mundo ao redor mergulha na escuridão, criando um dualismo.

VEREDITO

A edição que li foi de 2009 pela L&PM Pocket, o texto continua acessível e impactante, mas é diferente da que eu li anos atras. Avaliei com 4 estralas, porque funciona. Funciona porque dói. Porque emociona. Porque revolta. Porque nos obriga a olhar para a responsabilidade coletiva diante das tragédias individuais.

O que me surpreendeu nessa releitura foi perceber que eu não estava pronta suficiente para essa leitura em 2016. Não perceber o qual profunda era essa historia, além de encontrar frases com duplo sentido em meio a leitura, algumas com um tom pejorativo.

Eu indicaria Romeu e Julieta para jovens e adultos, especialmente para quem acha que já conhece a história. Ler a peça é diferente de ouvir falar dela, de assistir um filme... O que mais me marcou foi perceber que o amor deles realmente une as famílias, mas une pela culpa, pelo luto, pela perda. Shakespeare sabia que a vida não avisa quando vai virar tragédia. E às vezes, quando percebemos, já é tarde demais.

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1 de mar. de 2026

Resenha: Tempestade de Ônix

 

Tempestade de Ônix - Rebecca Yarros 
Avaliação: ★★☆☆☆ (2/5)
Classificação: 18+
Gênero: Fantasia, Romance, ficção
Ano: 2025 / Páginas: 608
Editora: Planeta Minotauro

Depois de tanta expectativa, a sensação que fica é: para onde essa história está indo, e por que parece que não sai do lugar?

Tempestade de Ônix tinha potencial para aprofundar conflitos, expandir o universo e entregar revelações marcantes. Em vez disso, soa como um volume de transição longo e repetitivo.

24 de jan. de 2026

A pressão por produtividade na escrita

 Quantas páginas você escreveu hoje? Quando sai o próximo livro?

As são perguntas simples e direta, e quase sempre, bem-intencionada. Mas, para muitos escritores, ela carrega um peso. Em um mundo que mede o valor por números — páginas, palavras, publicações, engajamento — a escrita, que nasce do silêncio, das experiências, da observação e da escuta interna, tem sido empurrada para um ritmo que nem sempre lhe pertence.

Nunca se falou tanto em escrever. E, paradoxalmente, nunca tantos escritores se sentiram travados, cansados ou insuficientes. Por isso, resolvi escrever esse artigo para você leitor.

Quando o carinho vira cobrança

A ideia de produtividade invadiu todos os campos da vida contemporânea, e a literatura não escapou. Hoje, não basta escrever bem; é preciso escrever sempre. Manter constância, presença digital, prazos rígidos e uma produção contínua que dialogue com algoritmos e expectativas externas.

A escrita criativa, porém, não funciona como uma linha de montagem. Um conto não nasce apenas de disciplina, e um romance não se constrói só com metas diárias de palavras. Há dias em que o texto flui; em outros, ele exige maturação, leitura, silêncio e elementos que não aparecem em gráficos de desempenho.

É importante dizer: leitores apaixonados não são o problema. Pelo contrário. Eles sustentam a literatura, mantêm livros vivos e criam comunidades em torno de histórias. O conflito surge quando o entusiasmo passa a ditar o ritmo criativo do escritor.

Comentários como “estou esperando a continuação”, “já faz muito tempo sem lançar nada” ou “outros autores publicam mais rápido” podem parecer inofensivos, mas, repetidos constantemente, criam um clima de urgência. A obra deixa de ser um processo e passa a ser uma promessa com prazo implícito. Talvez você seja um leitor que fez esse comentário, e gostaria que fosse mais consciente ao finalizar a leitura desse artigo.

O leitor da era da velocidade, tic tac, tic tac o relógio não para de trabalhar

Parte dessa pressão nasce do próprio contexto em que vivemos. Séries lançam temporadas anuais, plataformas que oferecem conteúdo infinito e redes sociais que estimulam consumo constante (quantas horas passou scrollando hoje?). O leitor contemporâneo está acostumado à rapidez e, sem perceber, transfere essa lógica para os livros.

Mas literatura não funciona como streaming. Um romance não é um episódio que pode ser entregue no mesmo ritmo. Cada livro carrega decisões estéticas, revisões, cortes, amadurecimento de ideias e, muitas vezes, conflitos pessoais do autor.

Livros precisam de tempo. Não apenas para serem escritos, mas para amadurecerem. Muitas ideias só revelam seu verdadeiro potencial depois de repousar. Um personagem mal resolvido hoje pode se tornar inesquecível após meses de reflexão.

Exemplos da literatura que escolheu o tempo

A história literária está cheia de autores que desafiaram expectativas de ritmo. J. D. Salinger publicou pouco e se retirou da vida pública. Harper Lee levou décadas entre um livro e outro. Mesmo assim, suas obras continuam lidas, estudadas e debatidas.

J.R.R. Tolkien levou cerca de 12 a 17 anos para escrever O Senhor dos Anéis, começando logo após o sucesso de O Hobbit por volta de 1937 e concluindo a obra, com diversas revisões, por volta de 1949-1950, sendo publicado apenas em 1954-1955. A escrita foi lenta devido a interrupções, perfeccionismo e ao desenvolvimento complexo da mitologia. Além disso, Tolkien não era um escritor em tempo integral, então escrevia em seu tempo livre enquanto trabalhava como acadêmico.

Hoje temos Diana Gabaldon leva, em média, cerca de 5 anos para publicar cada volume principal da série Outlander. No entanto, esse tempo tem variado ao longo dos quase 30 anos de lançamento da saga. Sarah J. Maas leva em torno de 2 a 5 anos para publicar, sabemos que seus livros são conhecidos por serem muito longos e complexos, o que exige mais tempo de escrita e edição. Ela também mencionou a necessidade de equilibrar a escrita com a vida familiar.

Esses autores não escreveram para atender demandas imediatas, mas para entregar algo que consideravam verdadeiro. O tempo foi parte essencial da construção dessas obras — não um obstáculo.

A permanência de um livro, muitas vezes, está ligada justamente à sua recusa em ser apressado.

O papel do leitor consciente

Talvez seja hora de repensar também o lugar do leitor nesse processo. Apoiar um autor não é apenas pedir mais, mas respeitar o tempo da criação. É entender que histórias precisam de espaço para respirar antes de serem compartilhadas.

Eu sei que você é apaixonado por histórias, e das boas, então não vamos sufocar o artista, que no caso é o autor, okay?

16 de jan. de 2026

Publicar de forma independente ainda é visto como “medíocre”?

Se um livro emociona, provoca reflexão e permanece com o leitor depois da última página… importa mesmo por qual caminho ele chegou até ali?

Durante muito tempo e, em certos círculos, ainda hoje publicar de forma independente carregou um estigma difícil de ignorar. Para alguns, era sinônimo de “plano B”, de rejeição pelas editoras tradicionais ou até de falta de qualidade. Mas o mercado editorial mudou, o leitor mudou, e a própria ideia de originalidade literária está em transformação. A pergunta que fica é: publicar de forma independente ainda é visto como medíocre, ou estamos presos a uma visão ultrapassada do que é literatura válida?

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