Reler Romeu e Julieta, 10 anos depois, foi um choque, não tinha maturidade literária e mental suficiente na época. Descobri que a versão popular da história é apenas a superfície de algo muito mais complexo e doloroso.
E se a maior tragédia de amor da literatura não fosse sobre morrer por amor, mas sobre adultos orgulhosos demais para salvar seus próprios filhos?
O conflito central não é apenas o romance proibido entre dois jovens; é o ódio irracional entre duas famílias, Montéquio e Capuleto, que transforma a cidade de Verona em um campo minado emocional. O amor de Romeu e Julieta nasce dentro desse ambiente sufocante e cresce rápido demais, como se soubesse que o tempo é curto.
A estrutura narrativa é linear, cronológica, com começo, meio e fim bem definidos, e que fim hein... Há prólogo, há presságios, há uma sequência de decisões precipitadas que funcionam como peças de dominó até o clímax devastador.
Um casamento secreto, o duelo que muda o rumo da história, o plano arriscado do Frei Francisco, tudo conduz a um desfecho que não surpreende pelo que acontece. Sabemos que a tragédia virá, mas isso não diminui o impacto; ao contrário, amplia a angústia.
O narrador é onisciente, em terceira pessoa, característica do texto teatral que se constrói por meio de falas. Não há um único ponto de vista dominante, mas múltiplas vozes que revelam diferentes perspectivas sobre amor, honra, masculinidade e poder. Essa alternância dá profundidade ao conflito, porque percebemos que ninguém é completamente vilão, mas todos são responsáveis.
PERSONAGENS
Romeu é impulsivo, apaixonado pela ideia de amar. No início, sofre por Rosalina; mas ao entrar de penetra na festa da família Capuleto, ele se depara com a belíssima jovem. Romeu se encanta por ela e pouco depois, declara amor eterno a Julieta. Há intensidade genuína, mas também imaturidade.
Julieta, por outro lado, é quem apresenta o arco de transformação mais evidente. Começa recatada, quase infantil (o que seria até natural pela idade de 14 anos), e termina tomando decisões radicais sozinha. Quando descobre que Romeu é um Montecchio, poderia recuar, mas escolhe avançar. Quando ela percebe que será forçada a casar com Paris, desafia a autoridade paterna a ponto de colocar a própria vida em risco.
Apesar de serem muito jovens, não vejo apenas paixão juvenil, vejo é compromisso selado às pressas em um mundo que não lhes dá espaço para amadurecer (eles de fato se casaram). São personagens complexos, atravessados por contradições, símbolos de uma juventude esmagada pelo orgulho masculino e pela rigidez social.
UNIVERSO & AMBIENTAÇÃO
A ambientação em Verona, na Itália renascentista, é histórica e realista, mas carregada de teatralidade. As ruas são palco de brigas públicas; os salões, de festas luxuosas e encontros secretos; a sacada se torna um dos cenários mais icônicos da literatura. Há uma coerência interna nas regras sociais, honra deve ser defendida, ofensas precisam ser vingadas, e são justamente essas regras que conduzem à tragédia. As descrições, ainda que vagas, ganham força pela linguagem poética, repleta de imagens sensoriais ligadas à luz e à escuridão, ao dia e à noite, ao céu e ao inferno.
TEMA & MENSAGENS
Os temas são universais: amor, ódio, destino, juventude, morte, honra, conflito geracional. A obra levanta reflexões sociais e existenciais profundas como: o que acontece quando o orgulho dos adultos vale mais do que a vida dos jovens? O amor é libertação ou condenação quando vivido sem maturidade?
O tom não é militante, mas simbólico e profundamente humano. Shakespeare não aponta o dedo, ele expõe. E o que fica depois da última página é um peso no peito, uma sensação de perda e a percepção de que a reconciliação veio tarde demais.
ESCRITA
A escrita é intensamente poética, musical, repleta de metáforas, hipérboles e jogos de linguagem. Há lirismo nas declarações de amor e brutalidade crua nas cenas de confronto. Shakespeare alterna humor , especialmente nas falas da Ama e de Mercúcio, com desespero absoluto. Ele conduz o leitor como quem sabe exatamente quando aliviar e quando apertar o coração. A repetição de imagens ligadas à luz transforma Julieta em sol, em estrela, em algo celestial, enquanto o mundo ao redor mergulha na escuridão, criando um dualismo.
VEREDITO
A edição que li foi de 2009 pela L&PM Pocket, o texto continua acessível e impactante, mas é diferente da que eu li anos atras. Avaliei com 4 estralas, porque funciona. Funciona porque dói. Porque emociona. Porque revolta. Porque nos obriga a olhar para a responsabilidade coletiva diante das tragédias individuais.
O que me surpreendeu nessa releitura foi perceber que eu não estava pronta suficiente para essa leitura em 2016. Não perceber o qual profunda era essa historia, além de encontrar frases com duplo sentido em meio a leitura, algumas com um tom pejorativo.
Eu indicaria Romeu e Julieta para jovens e adultos, especialmente para quem acha que já conhece a história. Ler a peça é diferente de ouvir falar dela, de assistir um filme... O que mais me marcou foi perceber que o amor deles realmente une as famílias, mas une pela culpa, pelo luto, pela perda. Shakespeare sabia que a vida não avisa quando vai virar tragédia. E às vezes, quando percebemos, já é tarde demais.
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