As Crômicas de Júpiter 2
Avaliação: ★★★★★ (5.0)
Classificação: 18+
Gênero: Romance, Fantasia, Nacional
Ano: 2026 / Páginas: 1550
Editora: Izyncor
Insaad foi um livro grandioso, e não estou falando apenas do tamanho. Patrícia Criado entrega uma continuação emocionalmente muito mais intensa, expandindo o universo de Interion para algo ainda mais sombrio, caótico e desesperador. Cada capítulo carrega o peso do fim do mundo, enquanto os personagens tentam sobreviver não apenas à guerra, mas também aos próprios traumas.
A história começa exatamente onde Interion terminou. A batalha deixou marcas profundas, e agora Kyller carrega muito mais do que culpa e luto: uma arcanja presa dentro do próprio corpo. O conflito central gira em torno da destruição do continente — ou da tentativa desesperada de impedi-la.
Kyller descobre que a verdadeira guerra nunca foi apenas entre reinos, mas contra uma entidade capaz de ameaçar até mesmo os deuses: o Voracious e seus irmãos. Enquanto fogem acusados de traição, ela e Zion precisam encontrar os Olhos dos Deuses antes que o inimigo consiga reuni-los e provoque a queda da barreira que aprisiona outros dois Voracious.
A narrativa é dividida em três grandes núcleos: Zion e Kyller (com Hiro e Aish), Breno e Kaori, e, por fim, Adele e Oriel. Essa alternância de pontos de vista aproxima o leitor do psicológico dos personagens, que estão completamente em frangalhos.
O livro mergulha profundamente em temas como luto, culpa, medo, trauma e instabilidade emocional, tornando a experiência extremamente intensa e sufocante. Apesar dos diversos núcleos narrativos, Kyller continua sendo o verdadeiro coração da história.
Zion também cresce muito neste livro. Mesmo destruído pela perda do pai e de suas sombras, ele continua resiliente e permanece ao lado de Kyller em todos os momentos. A relação dos dois ganha ainda mais profundidade porque deixa de ser um romance contido: existe amor, desejo e entrega, mas também medo, incerteza e a sensação constante de uma tragédia iminente. Eles se amam, mas o mundo ao redor parece determinado a destruir qualquer possibilidade de felicidade entre os dois.
Hiro e Aish ficaram presos fora de Interion após o teste, mas acabam encontrando Zion e Kyller, partindo juntos para Insaad. O romance entre eles se torna mais evidente, embora ainda não esteja completamente estabelecido. A presença de Aish também é extremamente importante para as negociações com Vinturis, já que seus pais possuem grande prestígio político. Além disso, o arco da personagem aborda um tema pouco explorado em fantasias: a poligamia. Na cultura de sua nação, é comum que uma mulher tenha mais de um marido, e é aí que a narrativa também introduz elementos de harém reverso.
Adele segue para Yonser, e é ali que sua verdadeira jornada de sobrevivência começa. Assombrada pelos traumas adquiridos após ser torturada e abusada pelo próprio tio, ela tenta continuar vivendo, embora seja evidente que está emocionalmente destruída. Adele bebe, usa drogas, se envolve em confusões e claramente não está bem. Sua mãe dá um basta e a coloca no hospital que administra, iniciando assim um tratamento psiquiátrico.
A personagem se tornou uma das figuras mais dolorosas e humanas da obra. Se em Interion existia uma relação de amor e ódio com ela, em Insaad passamos boa parte do tempo preocupados com sua sobrevivência emocional. Adele é uma sobrevivente. Sua bipolaridade também levanta discussões importantes sobre saúde mental e sobre como transtornos psicológicos afetam não apenas quem sofre com eles, mas também as pessoas ao redor.
Oriel, após possuir o corpo de uma yonseriana no final de Interion, agora tenta assumir o controle completo da mente de Aylui. Nesse processo, ele acaba conhecendo Adele. Ori se torna uma peça fundamental na lenta reconstrução emocional dela, e o romance entre os dois cresce de forma inesperadamente sensível. O livro também explora questões relacionadas à identidade e sexualidade através dessa dinâmica, já que Oriel ocupa o corpo de uma mulher, e sabemos que alguém vai ficar extremamente irritada quando descobrir...Além disso, o núcleo de Yonser expande muito a crítica social presente na obra. A cultura patriarcal e opressora do reino, comandada pela Inquisição Vermelha, é genuinamente perturbadora. Os capítulos ambientados em Yonser causam desconforto constante porque mostram mulheres submetidas a regras cruéis em nome da suposta “vontade de Anabel”. Foi impossível não sentir angústia durante essas partes.
Breno talvez tenha vivido uma das tramas mais brutais do livro. Ele cai em uma emboscada preparada por Kaori Yamamoto. Ao lado do irmão, Dominic, Breno é sequestrado junto com Yugo — pilar de Interion e também portador de poderes de bloqueio — para ser usado como moeda de troca por Akira, o irmão desaparecido da górgona. Entregue ao Voracious, Breno passa a viver um verdadeiro pesadelo em Valmar, capital de Drutes, agora completamente destruída pela criatura que possuiu o corpo de Ravena.
As cenas envolvendo Breno são extremamente pesadas. Ele é maltratado, violado e explorado de formas horríveis, sobrevivendo apenas porque ainda possui algo pelo qual lutar: seu irmão. É um arco doloroso, cruel e emocionalmente devastador.
Kaori também surpreende bastante. Já existia uma certa antipatia em relação à personagem por causa de seu passado com Zion, mas sua traição muda completamente a percepção do leitor... O que você faria para salvar ou proteger pelo seu irmão? Ainda que suas ações não sejam justificáveis, é impossível ignorar o desespero que a motivou. Ela acreditava que poderia salvar o irmão, mas tudo o que conseguiu foi carregar uma dor ainda maior. Quando percebe o horror causado por suas escolhas, a culpa passa a consumi-la completamente.
Depois de perder o propósito, Kaori recebe uma missão de Zion através dos sonhos psíquicos e, a partir daí, começa a arquitetar um plano de fuga. Durante esse processo, os personagens conhecem um velho que divide cela com Breno, e a revelação sobre sua verdadeira identidade é uma daquelas cenas capazes de destruir emocionalmente qualquer leitor.
Ganhamos novos personagens para a trama, dentre eles: Daena (regente de Insaad), Saíke (contrutor, Pilar), Aniram (Pilar), Versúvio (responavel pelas defesas de Insaad e Pilar), Pyra (portadora do TEA), Taédra (Mestre-espião), Angel e Oriel (os arcanjos), Varya (mãe de Adele e chefe do maior hospital de Yonser), Yannik (Ana - uma especie de freira), Kryst (Ana), Lena (Ana), Zoya e Ekatheryna (irmães gemeas, Anas), e a quimera Lança-Negra. Todos ceram crucial no desenvolvimento da enredo.
Não posso deixar de falar das quimeras! Sim, temos a boa surpresa de que temos mais dessas criaturas que nos arrancam boas risadas. Em destaque temos Lança-Negra que é o alfa de um bando contendo mais de 80 quimeras. Sabemos que essas criaturas matam os carniçais e são cruciais na batalha que há de vir.
Deuses, monstros, descendentes, guerras políticas e entidades ancestrais dão vida a uma obra gigantesca e extremamente ambiciosa. Conforme a história avança, tudo parece maior, mais perigoso e mais desesperador. E sinceramente? Eu adorei isso. Insaad possui aquela energia de fantasia apocalíptica em que o leitor percebe que os personagens estão enfrentando algo muito além da compreensão humana.
UNIVERSO E AMBIENTAÇÃO
Patrícia Criado utiliza descrições sensoriais muito fortes, principalmente nas cenas de batalha e nos momentos mais sombrios, o que torna tudo muito cinematográfico. Você se sente incerido no cenário. Deuses, monstros, descendentes, entidades ancestrais e intrigas políticas coexistem de forma extremamente coerente.
TEMAS E MENSAGENS
Insaad trabalha temas como luto, identidade, poder, trauma, amor, religião, livre-arbítrio, transtornos mentais, sobrevivência e sacrifício. Mas acima de tudo, o livro fala sobre o que acontece quando alguém é forçado a carregar responsabilidades maiores do que deveria suportar.
A narrativa levanta reflexões sobre humanidade, destruição emocional e até sobre a perda da identidade. A presença da arcanja dentro de Kyller simboliza muito essa luta interna entre controle e destruição, assim como acontece com Oriel e Aylui.
O livro tenta provocar uma sensação constante de urgência e desespero. Não existe conforto aqui. Mesmo os momentos felizes parecem frágeis, como se pudessem estilhaçar a qualquer instante.
VEREDITO
Insaad expande tudo o que Interion construiu. O universo fica maior, conseguimos mergulhar em outras nações, e agora muitas coisas ficam evidentes no comportamento dos personagens que estavam fazendo intercambio em Interion.
A leitura é densa, mas extremamente viciante e dinâmica, você devora os dois tomos... Mesmo sendo um livro grande, o ritmo prende porque sempre existe uma sensação constante de perigo. Existe equilíbrio entre diálogos, descrições e ação, embora em alguns momentos a quantidade de acontecimentos torne a leitura um pouco sufocante, mas acredito que não interfiram muito no entendimento, na verdade me deixou ansiosa...
Esse é um livro que nos faz sentir, e muito. O livro causa tensão, ansiedade, desespero e apego emocional aos personagens. Há muitos gatilhos (violência, morte, linguagem impropria, temas sensíveis, uso de drogas, sexo explícito e terro psicológico), então se não tiverem prontos para essa leitura, sugiro deixar para outro momento. Algumas cenas carregam uma sensação tão forte de perda e inevitabilidade que continuam presentes mesmo depois do fim da leitura.
A narrativa continua fazendo mencionando os deuses, dessa vez ganhando mais camadas, já que temos 2 arcanjos no plano terreno e duas divindades aparecem na narrativa, agora sabemos que o plano dos deuses nunca foi sobre proteger.
E sinceramente? Depois desse final, eu tenho medo do que Patrícia Criado ainda pretende fazer com esses personagens.
E se você chegou até aqui já te informo que a sequencia do universo das Crônicas de Júpiter esta em andamento e terá o título Víntures, o que me leva a crer que a batalha final aconteceram nessa nação.
São livros são edição de luxo e são caros, foi um dinheiro muito bem investido pela qualidade da história e outros adereços, mas acredito que o hot stamping acabou sendo um ponto fraco da edição. Para uma obra tão bonita e tão especial visualmente, é triste ver os detalhes da capa se desgastando tão rápido.
P.S.2: Lembrando que são dois volumes por terem sido divididos, mas é o mesmo enredo.
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