6 de out. de 2021

Resenha Express: Vidas Provisórias - Edney Silvestre

 

Vidas Provisórias - Edney Silvestre

Vidas Provisórias - Edney Silvestre

Avaliação: ★★★★☆4/5
Classificação
: Jovem Adulto
Gênero
Romance de ficção dramática e histórica
Ano
: 2013 / Páginas: 240 / EditoraIntrínseca

Existem livros que nos conquistam na primeira página. E existem aqueles que exigem tempo, paciência e entrega.

Vidas Provisórias pertence ao segundo grupo.

Serei completamente sincera: quando comecei a leitura, achei que jamais conseguiria terminá-la. Não estava me adaptando à escrita do autor. A narrativa parecia distante, o ritmo era mais lento do que eu esperava e, por um bom tempo, não consegui me conectar verdadeiramente com a história.

Foi uma daquelas leituras em que você fecha o livro e pensa: "Talvez este não seja para mim." E, sinceramente, isso acontece. Nem todo livro chega até nós no momento certo.

Por um tempo, deixei Vidas Provisórias de lado. Ele ficou ali, esperando silenciosamente na estante — como se soubesse que ainda não era a sua hora.

Então chegou a Spring Read. Decidi colocá-lo na TBR e dar uma nova chance à história. E foi uma das melhores decisões literárias que tomei. Porque, às vezes, alguns livros não nos conquistam pela velocidade, mas pela permanência.

Pouco a pouco, fui entrando naquele contexto, compreendendo melhor os personagens e me acostumando à escrita do autor. A narrativa deixou de parecer difícil e passou a soar humana, delicada e profundamente reflexiva.

Quando percebi, já estava emocionalmente envolvida. É curioso como certas histórias funcionam dessa maneira: elas não explodem diante de nós.

Vidas Provisórias é um livro que parece conversar sobre a própria condição humana: sobre mudanças, recomeços, perdas e a sensação de que estamos todos, de alguma forma, vivendo fases transitórias da vida.

Afinal, quantas vezes construímos versões temporárias de nós mesmos?

Quantas vezes acreditamos estar apenas sobrevivendo até encontrar um lugar ao qual realmente pertençamos?

Talvez seja justamente isso que torna a obra tão especial. Ela não entrega respostas prontas. Entrega reflexões.

Nem toda leitura precisa ser fácil para ser valiosa. Às vezes, os livros que mais exigem de nós são justamente aqueles que mais nos transformam.

Duas Vidas, Um Mesmo Deslocamento

O romance entrelaça duas narrativas que, à primeira vista, parecem distantes no tempo e no espaço, mas que se comunicam por um mesmo fio condutor: a dor do exílio.

Barbara Costa é uma imigrante ilegal em Nova York, em 1990. Ela vive na corda bamba, fugindo da polícia e sobrevivendo em um submundo onde brasileiras casadas se prostituem para sustentar famílias que nunca saberão a verdade. Barbara encontra em Silvio uma possível salvação — um homem que pode lhe dar segurança, mas jamais amor verdadeiro. Sua luta é pela sobrevivência física, mas também pela manutenção de sua dignidade em uma terra que a trata como invisível.

Paulo Antunes é um exilado político na Suécia, fugindo da ditadura militar brasileira dos anos 1970. Perseguido por suas ideias, ele tenta anestesiar a memória com encontros sexuais intensos com Anna. Mas o corpo não consegue apagar o que a alma insiste em recordar. Para Paulo, o exílio é uma ferida aberta, e o sexo é apenas um paliativo para a saudade e o trauma.

Ambos os personagens compartilham o mesmo dilema: estão presos em "vidas provisórias", suspensos entre o que foram e o que poderiam ser, entre a terra que deixaram e a que os rejeita.

Imigração, Política e a Busca por Identidade

Edney Silvestre constrói um romance que é, ao mesmo tempo, íntimo e histórico. Ele nos convida a mergulhar em duas décadas cruciais do Brasil — a repressão dos anos 1970 e o caos social dos anos 1990 — e a enxergar o exílio não apenas como um deslocamento geográfico, mas como uma fratura da alma.

O livro trata de:

  • Imigração e choque cultural: A dificuldade de ser estrangeiro, de não dominar a língua, de ser reduzido a um estereótipo.
  • Exílio político e memória: O preço de lutar por um ideal e ser forçado a abandonar tudo.
  • Identidade e pertencimento: A pergunta que ecoa por toda a obra: quem somos quando tudo que conhecíamos é deixado para trás?

A escrita de Silvestre não entrega respostas fáceis. Ela oferece reflexões. E é justamente por isso que o livro exige do leitor uma entrega que vai além do entretenimento.

Vidas Provisórias é uma leitura sensível e contemplativa, que pede paciência do leitor, mas recompensa com reflexões profundas e uma experiência literária marcante. Não é um livro para ser devorado rapidamente — é um livro para ser vivido.

Se eu pudesse dar apenas um conselho, seria este:

Por favor, leiam Vidas Provisórias. Nem que leve semanas. Nem que leve meses. Apenas leiam. Porque alguns livros não entram na nossa vida para nos entreter. Entram para permanecer.

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