7 de fev. de 2022

Resenha: A Vida Invisível de Addie LaRue


Avaliação: ★★☆☆☆ (2.0)
Classificação: 14+
Gênero: Romance
Ano: 2021 / Páginas: 504
Editora: Galera Record

Ser esquecida é uma forma de liberdade?

Quando comecei A Vida Invisível de Addie LaRue, imaginei encontrar uma fantasia sobre imortalidade. Ao terminar a leitura, percebi que estava diante de algo muito maior: uma história sobre memória, identidade e o desejo humano de deixar marcas no mundo.

Porque, no fim das contas, o que significa existir se ninguém consegue se lembrar de você?

Em 1714, na pequena vila de Villon-sur-Sarthe, na França, Adeline LaRue deseja algo simples e, ao mesmo tempo, impossível para uma mulher de sua época: liberdade.

Addie não quer se casar. Não quer viver presa aos limites impostos pela sociedade. Ela deseja viajar, criar, conhecer o mundo e viver uma vida que seja verdadeiramente sua. Desesperada diante de um destino que não escolheu, Addie faz o que jamais deveria fazer: Ora aos deuses que atendem após o anoitecer.

E um deles responde.

A entidade conhecida como Escuridão — posteriormente chamada por Addie de Luc — concede seu desejo. Em troca, porém, toma aquilo que torna qualquer ser humano inesquecível: sua permanência no mundo. 

A partir daquele momento, todos esquecem Addie no instante em que ela sai de vista.

Ninguém guarda seu rosto. Ninguém lembra seu nome. Ninguém se recorda de sua existência.

O que parecia liberdade transforma-se em uma prisão silenciosa que atravessa séculos. E talvez seja justamente aí que mora a grande pergunta deste livro:

Ser esquecida é uma forma de liberdade?

Para mim, a resposta é não. Porque existir também é ser lembrado. É deixar rastros. É permanecer na memória de alguém.

Mas Addie aprende algo extraordinário: mesmo quando o mundo insiste em apagá-la, ela continua escolhendo existir. E isso é, por si só, um ato de resistência.

Addie é uma protagonista fascinante. Sua jornada atravessa séculos, guerras, mudanças culturais e revoluções artísticas. Ela erra, insiste, sofre e se reinventa inúmeras vezes.

Sua maior força não é a imortalidade. É a teimosia. Ou, como ela mesma sugere, a capacidade de ser indomável como uma erva daninha.

Luc, por outro lado, é um antagonista irresistível. Arrogante, manipulador, sedutor e cruel, ele representa muito mais do que uma figura demoníaca. Luc é a própria escuridão do desejo humano: aquela voz que promete tudo, mas cobra um preço impossível de pagar.

A relação entre Addie e Luc é, sem dúvida, um dos aspectos mais interessantes da obra. Seus encontros ao longo dos séculos se transformam em um jogo de poder, dependência e desafio constante.

Henry é o personagem que mais me dividiu. Introvertido, solitário e emocionalmente fragilizado, ele possui sua própria história e carrega dores profundas. Apesar disso, confesso que não consegui me apegar totalmente a ele.

Consequentemente, o romance principal acabou não me emocionando tanto quanto eu esperava.

A narrativa é conduzida por um narrador onisciente e alterna entre passado e presente, acompanhando Addie entre 1714 e 2014. Felizmente, os capítulos são datados, o que torna a leitura fácil de acompanhar apesar dos saltos temporais. A divisão em partes e a estrutura cronológica ajudam a construir a sensação de uma vida longa — longa demais, talvez.

Uma das coisas que mais me encantaram foram as referências artísticas espalhadas pela narrativa. Pintura. Música. Literatura. Ideias. 

Tudo no livro parece girar em torno da arte como forma de permanência. Porque, se pessoas esquecem, a arte permanece.

E existem frases nesta obra que parecem feitas para morar dentro do leitor:

"Livros são uma maneira de viver milhares de vidas — ou de encontrar forças para aguentar uma vida muito longa."

Como leitora, essa frase me atingiu em cheio. Outra reflexão poderosa é a respeito das palavras e do poder das ideias:

"As ideias são mais indomáveis do que as lembranças."

Talvez porque ideias sobrevivam ao tempo,às pessoas e, até mesmo, ao esquecimento.

Apesar da beleza da escrita, preciso admitir: Este livro é lento. Muito lento.

Em alguns momentos, especialmente na parte central da narrativa, senti que a história perdia ritmo. Além disso, senti falta de mais conflitos externos. Grande parte dos confrontos acontece entre Addie e Luc, e muitos deles seguem estruturas semelhantes, o que acabou gerando certa repetição.

O plot twist também não me impactou tanto quanto eu esperava. Na verdade, terminei a leitura me perguntando se havia interpretado corretamente algumas das revelações.

E, embora compreenda a importância de Henry para a narrativa, o romance principal não conseguiu me conquistar emocionalmente.

A Vida Invisível de Addie LaRue é um livro belo, melancólico e profundamente humano. Sua maior força não está na ação ou nas reviravoltas, mas nas reflexões que provoca sobre tempo, memória e legado.

No fim, Addie LaRue me ensinou algo importante:

Todos nós desejamos ser livres. Mas, no fundo, também desejamos ser lembrados. Porque ser amado é permanecer. E ser esquecido talvez seja a forma mais silenciosa de desaparecer.

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