9 de ago. de 2026

Resenha: Liberta-me - Tahereh Mafi


Estilhaça-me #2
Avaliação: ★★★☆☆ (3/5)
Classificação: +12
Gênero: Romance, Ficção, Literatura Estrangeira, Distopia
Ano: 2014 / Páginas: 448
Editora: Universo dos Livros

Se Estilhaça-me era o livro da ruptura, Liberta-me é o livro das consequências. Descobrimos que a maior e pior prisão não tem paredes.

Aqui, Tahereh Mafi tira Juliette do isolamento absoluto e a coloca diante de uma nova realidade: mais gente, mais poder, mais expectativa... e, ironicamente, menos liberdade do que o título promete. Porque, neste volume, a maior prisão da protagonista já não é física. É emocional. É mental. É aquilo que ela carrega dentro de si depois de anos sendo tratada como um erro.

E é justamente nesse ponto que o livro encontra sua virada de chave.

A liberdade que ainda parece prisão

Juliette está, enfim, fora das paredes do manicômio. Ela encontra pessoas como ela, descobre uma espécie de resistência e passa a conviver com a possibilidade de lutar contra o Restabelecimento. Em teoria, isso deveria representar alívio. Na prática, o que o livro mostra é uma protagonista completamente desnorteada, tentando entender quem é quando ninguém mais está dizendo a ela que deve apenas sobreviver.

O que me interessa em Liberta-me é que Tahereh Mafi não trata a evolução da Juliette como algo bonito, linear ou confortável. Não existe uma transformação limpa, pronta para aplausos. Existe medo. Existe contradição. Existe recaída. E isso é muito mais interessante do que simplesmente transformar a personagem numa heroína confiante do nada.

Juliette continua frágil, confusa... Continua carregando traumas que não desaparecem porque ela agora está entre aliados. E, sendo bem sincera, esse é um dos pontos mais honestos do livro: sair de um lugar horrível não resolve automaticamente o que foi quebrado dentro da gente.

Adam: proteção ou prisão disfarçada?

Se havia expectativa de que o romance com Adam fosse amadurecer aqui, ou amo menos ficar mais compreensivo, pois no primeito volume esse amor surge muito repentinamente e sem desenvolvimento. Mas sendo um pouco mais coerente, o livro segue por um caminho bem mais satisfatório do que eu gostaria. 

O relacionamento dos dois começa a mostrar um problema importante, Adam parece amar uma versão da Juliette que ele consegue proteger, mas não necessariamente acompanhar. Existe afeto, sim. Existe vínculo, claro. Mas também existe uma desconexão cada vez mais evidente entre o que Juliette está se tornando e o que Adam parece esperar dela.

E isso tudo pesa.

Porque, em vez de acompanhar uma relação construída com diálogo e crescimento, o que vemos muitas vezes é uma dinâmica travada, insegura e emocionalmente cansativa. A própria Juliette está em processo de reconstrução, mas o romance insiste em puxá-la para um lugar de dependência afetiva que não favorece sua evolução.

Para mim, esse é um dos pontos mais problemáticos do livro: ele quer vender uma relação intensa, mas nem sempre entrega profundidade emocional suficiente para sustentar essa intensidade.

Warner: o desconforto que funciona

Agora, se existe um personagem que continua causando ruído — e muira, mais muita curiosidade — é Warner.

Ele ainda não ocupa tanto espaço quanto muitos leitores gostariam, mas cada aparição dele carrega tensão. E aqui está o ponto: Warner não é interessante porque é “bonito”, “misterioso” ou porque a obra tenta enfeitiçar o leitor com um vilão charmoso. Ele é interessante porque há algo errado, instável e imprevisível nele. E isso, por mais incômodo que seja, torna tudo mais instigante.

O livro começa a insinuar camadas que ainda não estão completamente expostas, e isso funciona. Warner não é apenas uma figura de antagonismo; ele é uma presença que perturba a narrativa. E, às vezes, personagens assim são mais eficientes do que qualquer discurso explicativo.

Eu não diria que ele salva o livro, mas certamente é um dos elementos que impedem a leitura de cair na previsibilidade.

Kenji: o respiro que o livro precisava

Kenji é aquele tipo de personagem que entra em cena e imediatamente melhora o ritmo da narrativa. Ele tem humor, inteligência, presença e uma espécie de sensatez sarcástica que faz muita falta no meio do caos emocional da Juliette.

Mas o mais importante é que ele não existe só para fazer piada. Ele oferece apoio real, conversa, provoca, questiona e, de certa forma, ajuda a equilibrar uma história que poderia ficar excessivamente sufocante.

Kenji, demonstra como um coadjuvante bem construído pode sustentar uma narrativa tanto quanto os protagonistas. E, honestamente, em alguns momentos ele faz isso melhor do que os dois centros românticos do livro. Ele é o engraçadinho que todo mundo ama.

O Restabelecimento e o mundo ainda pela metade

Em termos de worldbuilding, Liberta-me continua deixando a sensação de que o universo é maior do que o que está sendo mostrado. O Restabelecimento segue como ameaça constante, mas ainda há muito pouco aprofundamento sobre sua estrutura, funcionamento e lógica política.

Isso não chega a ser um defeito absoluto, porque a série ainda está em fase de expansão, mas eu senti falta de um pouco mais de solidez. O livro parece confiar tanto no conflito emocional da Juliette que deixa o pano de fundo quase sempre em segundo plano.

E isso tem um custo.

Porque, embora a leitura funcione bem na dimensão íntima, ela perde força quando tenta se apoiar apenas na tensão entre personagens sem entregar o suficiente da ameaça que deveria sustentar toda a história.

A escrita de Tahereh Mafi: ainda mais intensa, ainda mais divisiva

Se em Estilhaça-me a escrita já chamava atenção, aqui ela continua sendo um recurso central da experiência.

Tahereh Mafi aposta em frases riscadas, repetições, imagens poéticas e um tom extremamente sensorial para traduzir o estado mental da Juliette. E isso continua funcionando como marca autoral. O texto não quer ser neutro. Ele quer incomodar, fragmentar, mergulhar o leitor dentro da protagonista.

Veredito

Liberta-me é um volume sobre transformação, mas não sobre vitória. Sobre liberdade, mas não sobre leveza. Sobre amor, mas não necessariamente sobre maturidade emocional.

Juliette continua sendo o coração da série, e a jornada dela segue sendo o aspecto mais interessante da leitura. Ao mesmo tempo, o livro tropeça em romances desequilibrados, na falta de aprofundamento de alguns conflitos e em uma escrita que, por vezes, se torna mais estilizada do que necessária.

Ainda assim, há algo aqui que prende. Talvez seja a vulnerabilidade da protagonista. Talvez seja Kenji. Talvez seja a promessa de que a história ainda pode crescer muito mais adiante.

Para mim, Liberta-me é um livro mediano, mas importante dentro da saga. Ele aprofunda Juliette, amplia as tensões e deixa claro que a verdadeira luta não está só do lado de fora.

Agora eu quero saber de você: neste livro, você também ficou irritado com o Adam ou ainda estava tentando defendê-lo?

E o Warner, continua sendo só um problema… ou já começa a despertar interesse demais?

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