Quantas páginas você escreveu hoje? Quando sai o próximo livro?
As são perguntas simples e direta, e quase sempre, bem-intencionada. Mas, para muitos escritores, ela carrega um peso. Em um mundo que mede o valor por números — páginas, palavras, publicações, engajamento — a escrita, que nasce do silêncio, das experiências, da observação e da escuta interna, tem sido empurrada para um ritmo que nem sempre lhe pertence.
Nunca se falou tanto em escrever. E, paradoxalmente, nunca tantos escritores se sentiram travados, cansados ou insuficientes. Por isso, resolvi escrever esse artigo para você leitor.
Quando o carinho vira cobrança
A ideia de produtividade invadiu todos os campos da vida contemporânea, e a literatura não escapou. Hoje, não basta escrever bem; é preciso escrever sempre. Manter constância, presença digital, prazos rígidos e uma produção contínua que dialogue com algoritmos e expectativas externas.
A escrita criativa, porém, não funciona como uma linha de montagem. Um conto não nasce apenas de disciplina, e um romance não se constrói só com metas diárias de palavras. Há dias em que o texto flui; em outros, ele exige maturação, leitura, silêncio e elementos que não aparecem em gráficos de desempenho.
É importante dizer: leitores apaixonados não são o problema. Pelo contrário. Eles sustentam a literatura, mantêm livros vivos e criam comunidades em torno de histórias. O conflito surge quando o entusiasmo passa a ditar o ritmo criativo do escritor.
Comentários como “estou esperando a continuação”, “já faz muito tempo sem lançar nada” ou “outros autores publicam mais rápido” podem parecer inofensivos, mas, repetidos constantemente, criam um clima de urgência. A obra deixa de ser um processo e passa a ser uma promessa com prazo implícito. Talvez você seja um leitor que fez esse comentário, e gostaria que fosse mais consciente ao finalizar a leitura desse artigo.
O leitor da era da velocidade, tic tac, tic tac o relógio não para de trabalhar
Parte dessa pressão nasce do próprio contexto em que vivemos. Séries lançam temporadas anuais, plataformas que oferecem conteúdo infinito e redes sociais que estimulam consumo constante (quantas horas passou scrollando hoje?). O leitor contemporâneo está acostumado à rapidez e, sem perceber, transfere essa lógica para os livros.
Mas literatura não funciona como streaming. Um romance não é um episódio que pode ser entregue no mesmo ritmo. Cada livro carrega decisões estéticas, revisões, cortes, amadurecimento de ideias e, muitas vezes, conflitos pessoais do autor.
Livros precisam de tempo. Não apenas para serem escritos, mas para amadurecerem. Muitas ideias só revelam seu verdadeiro potencial depois de repousar. Um personagem mal resolvido hoje pode se tornar inesquecível após meses de reflexão.
Exemplos da literatura que escolheu o tempo
A história literária está cheia de autores que desafiaram expectativas de ritmo. J. D. Salinger publicou pouco e se retirou da vida pública. Harper Lee levou décadas entre um livro e outro. Mesmo assim, suas obras continuam lidas, estudadas e debatidas.
J.R.R. Tolkien levou cerca de 12 a 17 anos para escrever O Senhor dos Anéis, começando logo após o sucesso de O Hobbit por volta de 1937 e concluindo a obra, com diversas revisões, por volta de 1949-1950, sendo publicado apenas em 1954-1955. A escrita foi lenta devido a interrupções, perfeccionismo e ao desenvolvimento complexo da mitologia. Além disso, Tolkien não era um escritor em tempo integral, então escrevia em seu tempo livre enquanto trabalhava como acadêmico.
Hoje temos Diana Gabaldon leva, em média, cerca de 5 anos para publicar cada volume principal da série Outlander. No entanto, esse tempo tem variado ao longo dos quase 30 anos de lançamento da saga. Sarah J. Maas leva em torno de 2 a 5 anos para publicar, sabemos que seus livros são conhecidos por serem muito longos e complexos, o que exige mais tempo de escrita e edição. Ela também mencionou a necessidade de equilibrar a escrita com a vida familiar.
Esses autores não escreveram para atender demandas imediatas, mas para entregar algo que consideravam verdadeiro. O tempo foi parte essencial da construção dessas obras — não um obstáculo.
A permanência de um livro, muitas vezes, está ligada justamente à sua recusa em ser apressado.
O papel do leitor consciente
Talvez seja hora de repensar também o lugar do leitor nesse processo. Apoiar um autor não é apenas pedir mais, mas respeitar o tempo da criação. É entender que histórias precisam de espaço para respirar antes de serem compartilhadas.
Eu sei que você é apaixonado por histórias, e das boas, então não vamos sufocar o artista, que no caso é o autor, okay?
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