Ler pouco não é falhar como leitor
Existe uma culpa silenciosa que ronda muitos leitores. Ela surge quando alguém pergunta: “Quantos livros você leu esse ano?” Quem nunca perguntou ou quem nunca ouviu?
Ela cresce ao ver metas inalcançáveis, pilhas intermináveis e leituras exibidas como troféus nas redes sociais. E, aos poucos, essa culpa convence pessoas de que ler pouco é sinônimo de fracasso. Mas não é! Já escrevi em outro artigo que a leitura não é uma competição, a literatura nunca foi sobre velocidade, números ou rankings. Ela nasce do encontro entre texto e leitor, e encontros não seguem cronômetros.
Quando transformamos a leitura em uma corrida, perdemos algo essencial: o direito de ler no nosso tempo, conforme nossas circunstâncias, emoções e fases da vida.
Nem todo leitor tem horas livres.
Nem toda rotina permite constância.
Nem todo cansaço é preguiça.
Nem todo leitor é classe media alta.
Ainda assim, insistimos em medir leitores por quantidades, como se livros fossem degraus de uma escada moral. Ler pouco também é ler. Okay?
Um leitor que lê devagar, interrompe, retorna, reflete e sente, não é menos leitor do que aquele que consome títulos em sequência. Ele apenas vive a literatura de outra forma. O problema não é ler pouco, é ler por obrigação, chato né? E isso pode ser um tema para o próximo artigo.
Quando a leitura vira cobrança, ela deixa de ser abrigo. Vira tarefa. Vira culpa. (Acho que é por isso que relutei tanto para seguir uma carreira no mercado editorial).
Além disso, a indústria ama números, o que impulsiona o consumismo através do marketing digital. E se formos adicionar os influencers que muitas vezes não leem de fato os livros que resenham ou mostram para suas câmeras, bom você ficaria surpreso. Metas, desafios e estatísticas funcionam bem para algoritmos. Mas a literatura não é algoritmo. Lembrem disso!
Ler pouco não empobrece a relação com os livros. O que empobrece é ler sem vínculo. Você não deve nada à estante, você não precisa provar que é leitor, não precisa justificar pausas, não precisa acompanhar tendências, não precisa bater a meta, não precisa.
A literatura não exige performance. Ela convida à presença, a viver experiências. E, às vezes, estar presente em poucas páginas é mais honesto do que atravessar dezenas sem sentir nada. Ler pouco não é falhar, é existir dentro dos seus limites...
Ler pouco é humano, é possível, é válido, e acima de tudo, é suficiente.
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